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	<title>medicina africana &#8211; SAÚDE NA CAPITAL</title>
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	<description>SUA FONTE DE INFORMAÇÃO SEGURA SOBRE SAÚDE</description>
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	<title>medicina africana &#8211; SAÚDE NA CAPITAL</title>
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		<title>Como a medicina tradicional da África pode ajudar no combate à Covid-19</title>
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		<dc:creator><![CDATA[luizamelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Feb 2021 20:23:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COVID-19]]></category>
		<category><![CDATA[NOTÍCIAS DE SAÚDE]]></category>
		<category><![CDATA[medicina africana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pouco consideradas pela ciência, terapias africanas são estudadas como possíveis tratamentos contra novo coronavírus — ao mesmo tempo, falsas curas se espalham pelo continente Como a medicina tradicional da África pode ajudar no combate à Covid-19. Acima: curandeiro sentado entre instrumentos que utiliza para trabalhar na cidade de Fort Portal, Uganda, em dezembro de 2009 &#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h3>Pouco consideradas pela ciência, terapias africanas são estudadas como possíveis tratamentos contra novo coronavírus — ao mesmo tempo, falsas curas se espalham pelo continente</h3>



<figure class="wp-block-image"><img src="https://s2.glbimg.com/nSS3o6MIHE6nASlT3quuNQ-9iqk=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2020/06/17/gettyimages-1037968912.jpg" alt="FORT PORTAL, UGANDA - Dec 2009: A Ugandan witch doctor sits among ritual paraphernalia in a small village near Fort Portal in Uganda, East Africa (Foto: Getty Images)" title="Como a medicina tradicional da África pode ajudar no combate à Covid-19. Acima: curandeiro sentado entre instrumentos que utiliza para trabalhar na cidade de Fort Portal, Uganda, em dezembro de 2009 (Foto: Kylie Nicholson/Getty Images)"/><figcaption>Como a medicina tradicional da África pode ajudar no combate à Covid-19. Acima: curandeiro sentado entre instrumentos que utiliza para trabalhar na cidade de Fort Portal, Uganda, em dezembro de 2009 (Foto: Kylie Nicholson/Getty Images)</figcaption></figure>



<p>Chimaraoke Izugbara ficou preocupado quando o primeiro caso de&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/03/como-os-sintomas-da-covid-19-evoluem-cada-dia-de-acordo-com-gravidade.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Covid-19</a>&nbsp;foi confirmado no continente africano, mais especificamente no Egito, em 14 de fevereiro de 2020. O antropólogo especialista em saúde pública e diretor do Centro Internacional de Pesquisa sobre Mulheres (ICRW), nos Estados Unidos, sabe que, além da falta de recursos para prover tratamento de qualidade contra o novo&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/06/estudo-aponta-3-etapas-pelas-quais-novo-coronavirus-afeta-o-cerebro.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">coronavírus</a>, diversos países da&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2019/11/como-eram-sociedades-da-africa-subsaariana-antes-da-chegada-dos-europeus.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">África</a>&nbsp;têm outro desafio: conciliar a medicina tradicional de suas culturas com o conhecimento científico.</p>



<p>De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a medicina tradicional é a soma do conhecimento, da habilidade e das práticas baseadas em teorias, crenças e experiências de indígenas e povos de diferentes culturas. Comprovado cientificamente ou não, em diversos lugares do mundo o método faz parte da manutenção da saúde, da prevenção, do diagnóstico, da melhoria ou do tratamento de doenças físicas e mentais.</p>



<p>Em entrevista a&nbsp;<strong>GALILEU</strong>, Izugbara contou que o “trauma” de experiências passadas o deixa alerta: em 2014, pelo menos duas pessoas morreram e cerca de 20 foram hospitalizadas na&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Cultura/Arte/noticia/2015/05/nigeria-cinema-musica-e-livros-no-pais-do-boko-haram.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nigéria</a>, seu país natal, depois de ingerirem quantidades excessivas de solução salina. Segundo Izugbara, à época, posts em redes sociais diziam que a solução ajudaria as pessoas a evitarem a infecção pelo vírus causador do&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/04/vacina-demonstra-eficacia-contra-4-tipos-de-ebola-que-atingem-humanos.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">ebola</a>.<strong>SAIBA MAIS</strong><a></a></p>



<h4><a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/03/como-os-sintomas-da-covid-19-evoluem-cada-dia-de-acordo-com-gravidade.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Como os sintomas da Covid-19 evoluem a cada dia, de acordo com a gravidade</a></h4>



<p>Na&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Comportamento/noticia/2020/06/na-pandemia-mulheres-adotam-mais-medidas-preventivas-do-que-homens.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">pandemia</a>&nbsp;de 2020, o temor do nigeriano voltou quando a rede de televisão francesa&nbsp;<em><a href="https://www.france24.com/en/africa/20200512-exclusive-madagascar-s-president-defends-controversial-homegrown-covid-19-cure" target="_blank" rel="noreferrer noopener">France24</a></em>&nbsp;publicou uma entrevista com o presidente de&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/09/fossil-revela-que-humanos-ja-habitavam-madagascar-ha-mais-de-10-mil-anos.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Madagascar</a>, Andry Rajoelina, no último dia 12 de maio. Na conversa, o governante afirmou que o país teria encontrado a cura para o Sars-CoV-2: um tônico feito a partir da planta&nbsp;<em>Artemisia annua</em>, batizado de Covid-Organics.</p>



<p>O anúncio veio dias depois de Lova Hasinirina Ranoromaro, chefe de gabinete do presidente, dizer à&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/news/world-africa-52374250" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>BBC</em></a>&nbsp;que a fórmula, produzida pelo Instituto Malgaxe de Pesquisa Aplicada (IMRA), fora testada em 20 pessoas com&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/06/pesquisa-aponta-regiao-norte-como-epicentro-da-covid-19-no-pais.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Covid-19</a>&nbsp;ao longo de três semanas. Segundo o governo de Madagascar, dois pacientes teriam sido curados até então.</p>



<p>A preocupação de Izugbara não significa que o especialista não considere a medicina tradicional e o trabalho dos curandeiros extremamente importantes. “Há muito que podemos descobrir com os métodos tradicionais”, pondera. “Algo que devemos aprender com os curandeiros, por exemplo, é buscar tratamentos e curas em nosso meio ambiente, na fauna e na flora ao nosso redor.”</p>



<p><strong>De geração para geração</strong><br>Segundo a&nbsp;<a href="http://www.eurekaselect.com/161425/article" target="_blank" rel="noreferrer noopener">OMS</a>, ao menos 80% das pessoas na&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2020/01/mudancas-climaticas-de-140-mil-podem-ter-ajudado-migracao-da-africa.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">África</a>&nbsp;usam plantas medicinais para cuidar da saúde. Um estudo liderado por especialistas da Universidade de Serra Leoa e publicado no&nbsp;<a href="https://gh.bmj.com/content/bmjgh/3/5/e000895.full.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>British Medical Journal</em></a>&nbsp;em 2018 mostra que diversos fatores explicam o uso de ervas para tratar problemas de saúde&nbsp; — e dentre eles, é claro, está a tradição. Além da crença de que vegetais são alternativas mais &#8220;naturais&#8221;, os pesquisadores concluíram que o boca a boca e a associação do tratamento às crenças espirituais têm grande influência.</p>



<p>Ainda assim, o sanitarista Gidiun Peliegho, líder de um comitê de pesquisas sobre medicina tradicional africana em Camarões, acredita que o principal motivo pelo qual as pessoas continuam recorrendo ao método é outro: a precariedade dos sistemas de saúde nas diferentes nações do continente. “O fácil acesso à medicina tradicional nas comunidades [mais distantes] também estimula a prática”, observa o especialista, em entrevista exclusiva.</p>



<p>A opinião de Peliegho é corroborada tanto pelo artigo do&nbsp;<a href="https://gh.bmj.com/content/bmjgh/3/5/e000895.full.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>British Medical Journal</em></a>&nbsp;quanto pelo&nbsp;<a href="https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/92455/9789241506090_eng.pdf?" target="_blank" rel="noreferrer noopener">relatório</a>&nbsp;Estratégia de Medicina Tradicional da OMS 2014-2023, publicado em 2013. O documento aponta que a proporção de curandeiros tradicionais na África é de 1 para 500 pessoas, enquanto a de médicos é de 1 para 40 mil.</p>



<p>Entretanto, não são apenas os moradores das regiões rurais que utilizam ervas e outras&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Biologia/noticia/2020/03/como-plantas-se-protegem-do-sol-cientistas-finalmente-tem-resposta.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">plantas</a>. Mesmo quem mora em grandes cidades e tem acesso a médicos e hospitais utiliza a medicina tradicional. E por quê? Para Peliegho, Izugbara e outros cientistas, a resposta é simples: porque, muitas vezes, funciona.</p>



<figure class="wp-block-image"><img src="https://s2.glbimg.com/40QO0hkYPZHS0kV8bfLN6VTkV6Q=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2020/06/17/chindastraditionalpharmacy-720x340.jpg" alt="Venda de medicamentos tradicionais em mercado (Foto: Free Speech Radio News)" title="Venda de medicamentos tradicionais em mercado (Foto: Free Speech Radio News)"/><figcaption>Venda de medicamentos tradicionais em mercado (Foto: Free Speech Radio News)</figcaption></figure>



<p><strong>Ciência como aliada</strong><br>Um estudo publicado no&nbsp;<a href="http://www.eurekaselect.com/161425/article" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Current Pharmacogenomics and Personalized Medicine</em></a>&nbsp;em 2018 estima que entre 40% e 50% dos medicamentos que utilizamos hoje em dia contêm princípios ativos retirados de vegetais — e grande parte deles foi descoberta graças à medicina tradicional. Um exemplo é a&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2019/07/milhoes-de-pessoas-tomam-uma-aspirina-por-dia-sem-precisar-entenda.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aspirina</a>, que já era usada no Antigo Egito.</p>



<p>O interesse do resto do mundo pela planta cresceu a partir do século 18, quando o reverendo Edward Stone resolveu usar o salgueiro para tratar dores nas articulações — e funcionou. Depois disso, em 1763, Stone começou a investigar a erva e descobriu que ela também poderia ser utilizada no tratamento de outras condições, como a malária.</p>



<p>As “descobertas” de Stone se disseminaram pela Europa, e as propriedades do salgueiro começaram a ser avaliadas por outros cientistas. Nos anos 1800, pesquisadores de todo o continente começaram a explorar uma das substâncias presentes na planta, o ácido salicílico.</p>



<p>Em 1829, o farmacêutico francês Henri Leroux isolou a substância e, anos depois, em 1874, o químico alemão Hermann Kolbe descobriu a versão sintética do ácido. A droga, entretanto, causava problemas gástricos em quem a usava — e por isso os especialistas continuaram tentando aperfeiçoá-la.</p>



<p>Foi assim que, na década de 1890, o químico Felix Hoffmann, que trabalhava na empresa farmacêutica alemã Bayer, acabou desenvolvendo uma versão aperfeiçoada da droga: o ácido acetilsalicílico. Não muito tempo depois, em 1899, o remédio foi batizado de aspirina e passou a ser comercializado.</p>



<p>Mas os europeus não foram os primeiros a usarem as folhas de salgueiro para tratar dores. No Papiro de Ebers, documento de 1550 a.C que descreve diversos tratamentos utilizados durante a&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2020/04/ccbb-de-sp-disponibiliza-cursos-e-conteudos-da-exposicao-sobre-egito-antigo.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Antiguidade Egípcia</a>, há justamente a menção à casca de um tipo de salgueiro que era receitada para tratar sensações dolorosas.</p>



<p>Os historiadores não sabem exatamente como, mas a partir daquela época a utilização da planta se popularizou e se espalhou pelo mundo. “O uso da casca de salgueiro para alívio da dor continuou na Grécia Antiga, onde Hipócrates a recomendou para a dor do parto, até a época romana, quando seu uso foi registrado por Plínio, o Velho”, explica um estudo sobre a história da aspirina publicado no&nbsp;<em><a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/bjh.14520" target="_blank" rel="noreferrer noopener">British Journal of Haematology</a></em>.</p>



<p>São exemplos como este que, segundo Izugbara, provam que a medicina tradicional não é sinônimo de obsolescência e ignorância — associar esses fatores, na verdade, pode ser um tanto preconceituoso. “As pessoas não entendem que, no processo de escolha de uma folha ao invés da outra, há muito conhecimento”, pontua o especialista.</p>



<figure class="wp-block-image"><img src="https://s2.glbimg.com/YvUUTXY0WkcjSOlK9tbEB5N0YYo=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2020/06/17/traditional_medicine_in_ouagadougou.jpg" alt="Medicina tradicional em Uagadugu, Burkina Faso (Foto: Wikimedia Commons)" title="Medicina tradicional em Uagadugu, Burkina Faso (Foto: Wikimedia Commons)"/><figcaption>Medicina tradicional em Uagadugu, Burkina Faso (Foto: Wikimedia Commons)</figcaption></figure>



<p>De acordo com ele, há uma longa fase de experimentação com as plantas antes dos curandeiros as utilizarem para tratar humanos. “Os vegetais são testados primeiro em animais e depois nas pessoas, começando por doses baixas”, explica Izugbara. “Medicina tradicional não é apenas questão de crença.”</p>



<p>É exatamente por saberem disso que as autoridades de saúde de diversos países africanos pesquisam a fauna e a flora locais. Para alunos de medicina e farmácia, inclusive, estudar os métodos tradicionais é obrigatório em países como República Democrática do Congo, África do Sul e Tanzânia. E utilizar esses artifícios naturais não significa inutilizar a medicina contemporânea  — em muitos países da África, ambas têm uma relação simbiótica. “As pessoas sabem que não há cura para a <a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/06/dexametasona-reduz-mortes-de-pacientes-graves-de-covid-19-em-estudo.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Covid-19</a> no momento, então tentam se manter muito saudáveis ​​usando plantas da medicina tradicional conhecidas por fortalecer o sistema imunológico”, relata a Devina Lobine, farmacologista das Ilhas Maurício e especialista em costumes africanos.</p>



<p>Entretanto, essa “aliança” deve ser feita com base na ciência, pois o uso indevido desses vegetais ou a combinação deles com outras substâncias pode ser prejudicial. Um exemplo é a utilização do chamado “arbusto do câncer” (<em>Sutherlandia Frutescens</em>), erva consumida por muitas pessoas que têm o vírus do&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2017/11/hiv-apesar-de-avancos-da-medicina-preconceito-e-o-mesmo-dos-anos-80.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">HIV</a>&nbsp;para reforçar a imunidade.</p>



<p>Em um texto publicado no&nbsp;<a href="https://theconversation.com/traditional-african-medicine-and-conventional-drugs-friends-or-enemies-92695" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>The Conversation</em></a>&nbsp;em 2018, a bioquímica Chrisna Gouws, da Universidade North-West, na África do Sul, descreve os perigos da combinação da planta com o coquetel de remédios para o tratamento da aids. “Já foi demonstrado que [a&nbsp;<em>Sutherlandia Frutescens</em>, quando tomada em conjunto com os medicamentos,] diminui os níveis plasmáticos do antirretroviral atazanavir no organismo, reduzindo sua eficácia anti-HIV”, escreveu a especialista.</p>



<p>O caso do “arbusto do <a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/04/como-oncologia-de-precisao-promove-avancos-no-tratamento-do-cancer.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">câncer</a>” evidencia a linha tênue que existe entre a eficácia da medicina tradicional e os seus potenciais perigos. Enquanto diversas ervas são utilizadas há gerações na África, pouco se sabe sobre sua interação com medicamentos contemporâneos e o que podem causar em pacientes com doenças “novas”, como a Covid-19.</p>



<p>É justamente por isso que Chimaraoke Izugbara condena a fala de Andry Rajoelina, presidente de Madagascar, sobre o uso da&nbsp;<em>Artemisia annua</em>&nbsp;para tratar a infecção pelo novo&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2020/06/sars-cov-2-pode-ser-evolucao-de-coronavirus-em-morcegos-e-pangolins.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">coronavírus</a>. O especialista ressalta o fato de que, quando o governante afirmou a eficácia da planta contra a Covid-19, nenhum artigo científico sobre o assunto havia sido publicado.</p>



<p>“Vai ser difícil para ele [Andry Rajoelina] voltar atrás se a planta for ineficaz ou prejudicial”, avalia Izugbara. “Será como o que aconteceu nos Estados Unidos, onde o presidente deu a impressão de que&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/05/os-riscos-da-cloroquina-e-da-hidroxicloroquina-no-tratamento-da-covid-19.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a cloroquina e a hidroxicloroquina</a>&nbsp;eram uma cura para o coronavírus&nbsp;mesmo sem estudos para corroborar.”</p>



<p><strong>A&nbsp;<em>Artemisia</em></strong><br>Não foi por conta da&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/06/brasileira-integra-equipe-da-oms-que-pesquisa-vacina-contra-covid-19.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Covid-19</a>, entretanto, que a&nbsp;<em>Artemisia annua</em>&nbsp;ganhou popularidade: há anos vegetais do mesmo gênero são utilizados na África para tratar doenças como a malária. Além disso, em 2015, a chinesa Tu Youyou foi laureada com o Prêmio&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/10/alfred-nobel-quem-foi-o-inventor-que-da-nome-premiacao-de-ciencia.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nobel</a>&nbsp;de Medicina por ter descoberto, entre outras coisas, os princípios ativos da planta, a artemisinina e a diidroartemisinina.</p>



<figure class="wp-block-image"><img src="https://s2.glbimg.com/-FOHxNi9OeMZrxS3L-G_zwKXfd0=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2020/06/17/artemisia_annua_-_botanischer_garten_mainz_img_5638.jpg" alt="A Artemisia Annua (Foto: Wikimedia Commons)" title="A Artemisia Annua (Foto: Wikimedia Commons)"/><figcaption>A Artemisia Annua (Foto: Wikimedia Commons)</figcaption></figure>



<p>Quando o novo coronavírus tomou conta do mundo, uma equipe do Instituto Max Planck, na Alemanha, decidiu estudar as propriedades da planta para tratar a Covid-19. “A&nbsp;<em>Artemisia annua</em>&nbsp;e as artemisininas já se mostraram amplamente úteis no tratamento de diferentes vírus, como o&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/04/covid-19-sars-mers-sindromes-respiratorias-causadas-por-coronavirus.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sars-Cov-1</a>”, explica Peter Seeberger, líder da pesquisa, em entrevista a&nbsp;<strong>GALILEU</strong>. “Estamos testando diferentes extratos, compostos puros e suas misturas em ensaios de infecção celular.”</p>



<p>Mas, se as propriedades da&nbsp;<em>Artemisia&nbsp;</em>já são conhecidas há tanto tempo, por que sua utilização em países da África para tratar a Covid-19 gerou tanta polêmica?&nbsp; Para Devina Lobine, embora a falta de evidências científicas seja um fator importante, o principal motivo é um antigo conhecido dos cientistas da África. “Há muito preconceito contra a medicina tradicional africana”, afirmou a especialista. “Se a planta proposta por Madagascar fosse europeia, por exemplo, haveria uma resistência muito menor à realização de testes com ela.”</p>



<p>Como explica Lobine, uma das consequências do prejulgamento da medicina tradicional é a falta de investimento na ciência africana por parte de instituições estrangeiras, incluindo a própria OMS. Essa falta de financiamento, por sua vez, abre espaço para que a fauna, a flora e o conhecimento das centenas de povos da África sejam explorados por cientistas de outros lugares.</p>



<p>Chimaraoke Izugbara concorda com a cientista e pontua que o sistema é semelhante ao que ocorria na África no passado. “O pior é que, às vezes, os exploradores não são éticos. Muitas vezes os medicamentos são produzidos a partir do conhecimento tradicional — e as pessoas da África nem mesmo têm acesso a eles.”</p>



<p>Após a entrevista concedida pelo presidente de Madagascar, outros países no continente optaram por comprar o tônico de&nbsp;<em>Artemisia</em>, o que levou a OMS a aprovar testes com a erva no tratamento da Covid-19. “A OMS está trabalhando com instituições de pesquisa para selecionar produtos de medicina tradicional que possam ser investigados quanto a eficácia e segurança clínicas do tratamento da&nbsp;<a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/06/potencial-de-propagacao-da-covid-19-e-semelhante-no-interior-e-em-capitais.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Covid-19</a>”, afirmou a organização em&nbsp;<a href="https://www.afro.who.int/news/who-supports-scientifically-proven-traditional-medicine" target="_blank" rel="noreferrer noopener">comunicado</a>.</p>



<p>Lobine vê a declaração da OMS como um avanço. “É preciso apoiar nossos pesquisadores locais. Não é hora de lutar uns contra os outros, mas de se unir em busca de uma solução”, afirma. “Se encontrarmos uma cura para a Covid-19, o tratamento não será usado apenas na África, mas no mundo todo.” E é exatamente por isso que em momentos como esse todo o conhecimento é importante — não importa de onde ele vem.</p>
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