Tomar ou não tomar remédios? O espinhoso problema da saúde mental da NBA

SHANE LARKIN ABRE os olhos, levanta e começa a viver outra vez sua versão particular do filme “Feitiço do Tempo”. Ele pega o controle remoto, coloca no SportsCenter e pula da cama para esperar por seu “número”. O menino tem 8 anos e, a cada manhã, se comporta de uma forma diferente e totalmente aleatória. Quando começa a se arrumar para ir à escola (um ritual que pode durar alguns minutos ou às vezes horas, dependendo do número do dia) ele vê a imagem de Ray Allen aparecendo televisão. Allen tinha feito oito cestas de 3 pontos no jogo da noite anterior. De repente, uma mensagem sensorial invade a cabeça de Shane e diz a ele qual é o número do dia: oito.

“A partir daí”, conta Larkin à ESPN, “tenho que lavar as mãos oito vezes.”

Depois de se lavar bastante, Larkin escolhe cuidadosamente as roupas. Mas se, sem querer, ele deixar a bermuda cair no chão, seu ritual exige que ele pegue uma bermuda nova e ainda por cima volte ao banheiro novamente para lavar as mãos.

Oito vezes.

Depois disso, Larkin tem que chegar até a mesa do café da manhã atravessando uma cozinha que é quase um mar de germes. A missão se transforma em uma verdadeira corrida de obstáculos: é preciso desviar das manchas de molho, das esponjas encharcadas e dos pratos sujos. Quando ele chega na porta de casa, quase a ponto de perder o ônibus (de novo), o cachorro da família corre em sua direção e enche o garoto de lambidas. Larkin não tem escolha: precisa voltar para o banheiro e lavar as mãos mais oito vezes. No final do dia, suas mãos estão tão sensíveis pela lavagem obsessiva que já têm algumas feridas.

A doença de Larkin, diagnosticada como TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), afeta somente 2,3% da população e apenas 1 em cada 100 crianças. Para um menino que não consegue entender por que está preso ao seu próprio ritual aleatório, tudo isso é cansativo, frustrante e muito assustador.

“Eu não sei o que acontece”, diz Larkin. “Vejo meus amigos lavarem as mãos uma vez, ou nem lavarem, e penso: ‘O que acontece comigo?’”

Ironicamente, o homem que inspirou o “número” de Larkin há alguns anos – Ray Allen – também foi diagnosticado com “TOC borderline”. Ele precisava organizar seu dia nos mínimos detalhes, o que incluía um ritual repetitivo específico antes dos jogos, que o levou ao Hall da Fama.

Se não fosse as cestas de Allen, outra coisa qualquer acabaria ditando o ritmo do dia de Larkin, algo tão inofensivo quanto três passarinhos em uma árvore em frente à sua janela, por exemplo. Ele respira aliviado: com o número três, seu comportamento obsessivo seria mais administrável nas próximas 24 horas.

Inexplicavelmente, seu TOC desaparecia sempre que ele entrava em uma quadra de basquete. Lá, ele estava livre, sem qualquer preocupação com germes ou bactérias.

“Essa era a parte mais louca”, lembra Larkin. “Eu não conseguia apertar o botão do elevador ou abrir a torneira por causa dos micróbios, mas podia estar em uma quadra de basquete onde as pessoas estavam suando, mexendo no nariz e depois pegando a bola, e tudo bem.”

“Eu ficava horas jogando com aquela bola, depois saía da quadra e comia um hambúrguer sem nem lavar as mãos. Isso não fazia nenhum sentido.”

Larkin escondeu sua doença dos amigos e companheiros de equipe. Apenas sua família sabia como era complicado para ele passar o dia. “Não queria que as pessoas pensassem que eu era um tipo esquisitão”, diz Larkin.

Seus sintomas não desapareceram quando ele ficou mais velho. Se o cachorro deixasse um presentinho em cima do tapete, Larkin ficava preso em seu quarto, incapaz de passar pelo corredor. Para evitar a sujeira e o mofo, às vezes ele tinha que forrar o caminho para o banheiro com várias toalhas. Sua mãe, Lisa Larkin, lavava até 20 toalhas de banho por dia. Lisa entendia a situação do filho. Ela também lutou com problemas de saúde mental. Mas o pai de Shane, Barry Larkin, um famoso ex-jogador de beisebol, ficava perplexo com o comportamento dele e passou a adotar um estilo “linha dura”.

“Eu não queria que as pessoas achassem que eu era estranho”

O ex-armador do Celtics, Shane Larkin

“Meu pai me testava”, lembra Larkin. “Ele ia ao banheiro e não lavava as mãos de propósito, depois tocava no meu braço. Depois ele me dizia: ‘Tá tudo bem. Não vai acontecer nada com você’. Esse era o jeito dele de tentar resolver a coisa. Foi muito difícil e causou problemas na nossa relação.”

Barry Larkin admite que, quando viu pela primeira vez os sintomas de seu filho, pensou que as lavagens obsessivas de Shane eram “convenientes para ele, uma desculpa”.

“Eu queria ajudá-lo a superar aquilo”, diz Barry. “Achava que fazendo esse tipo de coisa eu iria desafiá-lo a sair daquela situação.”

Mas essa não era a melhor forma. Algo tinha de ser feito. No ensino médio, os sintomas de Larkin pioraram. Sua mãe decidiu buscar um profissional de saúde mental, que recomendou um medicamento antidepressivo para ajudar o garoto a lidar com seu problema. Resolver o problema dessa forma também não seria fácil. “Eu não estou deprimido”, disse Larkin à mãe. “Estou?”

Ele começou a tomar as pílulas. O remédio ajudou a aliviar alguns dos sintomas de TOC, mas, ao mesmo tempo, tirou dele a determinação e a energia, qualidades importantes para um astro do basquete em ascensão. “O remédio me deixava apagado”, lembra Larkin. “Ele me deixava muito relaxado, ficava distante. Eu precisava estar no limite para jogar como queria. E quando tomava o remédio, ficava meio fora do ar. Disse à minha mãe: ‘Não dá para continuar com isso’.”

Tomar ou não tomar remédios? É uma decisão que paira sobre os vestiários da NBA todos os dias, conforme os atletas profissionais lutam em silêncio para lidar com seus problemas de saúde mental. O estigma dos problemas mentais, que já é grande, se multiplica por dez quando os colegas descobrem que alguém está tomando “remedinhos”. É uma aposta que alguns jogadores acham que não vale a pena, já que um técnico ou dirigente preconceituoso pode tirá-los do time por causa disso.

“Passei a vida toda entrando e saindo dos remédios”, explica um astro da NBA que pensou em tornar pública sua história, mas acabou optando por permanecer anônimo. “Eu queria acreditar que essas coisas não importam, mas não tenho certeza se seria vantajoso que as pessoas soubessem disso na hora de negociar meu contrato. Eu tento levar minha vida pessoal de forma discreta, ficar longe das redes sociais. Já é bastante difícil.”

Jalen Rose diz que começou a descobrir doença nos tempos de Pacers

O DR. WILLIAM PARHAM, que é psicólogo em Los Angeles e foi contratado pelo sindicato dos atletas para supervisionar os crescentes problemas de saúde mental na NBA, reconhece que alguns casos requerem medicação. “Mas, na maioria dos casos, a medicação trata só os sintomas, não resolve os problemas reais”, diz Parham. Embora o número de jogadores da NBA com TOC seja pequeno, o debate sobre medicação também é válido para outros distúrbios, como ansiedade, depressão e TDAH (déficit de atenção e hiperatividade). Segundo John Lucas, assistente técnico do Houston Rockets e diretor de um programa de recuperação de abuso de substâncias para atletas, esse é um problema que não para de crescer na NBA.

“Conheço muita gente na NBA que toma remédios para TDAH, mesmo não gostando muito da ideia”, diz Lucas. “Eles precisam mesmo do medicamento, mas não gostam da letargia que ele produz na quadra. Manter um ritmo alto é importante para o jogador. Quando toma o remédio, os treinadores pensam: ‘Por que não conseguimos melhorar o desempenho dele?’ Mas quando o remédio é retirado, dizemos que é o jogador que queremos. Isso é um efeito da medicação, claro, o problema é que os jogadores não sabem como conter toda essa raiva e intensidade natural quando termina a partida.”

Doc Rivers, técnico do Los Angeles Clippers, disse que fez um teste de personalidade quando estava treinando o Boston Celtics. O teste concluiu que ele e o diretor de basquete da franquia, Danny Ainge, tinham TDAH. O resultado não surpreendeu o ex-armador da NBA. “Acho que a maioria dos jogadores profissionais tem algum problema”, diz Rivers. “Pode ser várias coisas. Eles são naturalmente hiper em tudo, é disso que vem a energia para competir. Eu não ligo se algum jogador meu tem diagnóstico de TDAH.”

Um gerente geral rival da Conferência Oeste discorda. Ele admite que, se dois jogadores têm o mesmo nível técnico e um deles tem TDAH, a escolha recai no que não tem a síndrome, por que “é menos provável que ele tenha problemas fora da quadra e falte aos treinos”.

“Sabe essas histórias de jogadores que destroem quartos de hotel?”, pergunta o gerente geral. “Isso acontece quando esses caras param de tomar os remédios. Então, além de todas as outras preocupações, agora não podemos deixar o pivô do time esquecer de tomar seu remédio.”

A dona do Los Angeles Lakers, Jeanie Buss, tem muita experiência com problemas de saúde mental. Ela trabalhou com Ron Artest (agora conhecido como Metta World Peace), que perdeu o controle em quadra quando era jogador do Indiana Pacers. O episódio levou a um dos capítulos mais sombrios da história da NBA, uma briga que envolveu até a torcida em 2004. Após a cena horrorosa, Artest foi aconselhado pelos médicos a tomar remédios antidepressivos (que acabou jogando no vaso sanitário), apareceu no programa “Jimmy Kimmel Live” usando só uma cueca e acabou encontrando um psicólogo chamado Dr. Santhi Periasamy, que o ajudou a mudar de vida. Quando os Lakers ganharam o campeonato de 2010 com um desempenho espetacular de Artest, ele agradeceu publicamente o “Dr. Santhi” por salvar sua carreira.

“Os Lakers não têm preconceito com jogadores com problemas de saúde mental, nossa equipe já teve atletas assim e eles foram muito importantes por aqui”, diz Buss. “Só é preciso prestar atenção em alguns pontos importantes: eles estão enfrentando o problema? Como eles estão lidando com o problema? Eles estão tomando decisões impulsivas que prejudicam a saúde e a carreira? Às vezes os remédios são a solução, outras vezes, não.”

“Eu pessoalmente escolhi fumar maconha. Não tinha interesse nas drogas que os médicos me receitavam”

Larry Sanders, ex-jogador da NBA

Os atletas que lutam contra o transtorno bipolar, uma doença séria que causa grandes alterações de humor, frequentemente têm que tomar uma medicação que é essencial para a saúde deles. A taxa de suicídio entre os pacientes bipolares é maior do que entre a população em geral. É grande a porcentagem de pessoas diagnosticadas com transtorno bipolar que tenta o suicídio pelo menos uma vez na vida. Para Lucas, quase 10% dos jogadores da NBA são bipolares. “Alguns deles não podem ficar sem medicação”, diz Lucas. “Eles são um perigo para si mesmos quando deixam de tomar os remédios.”

Rivers diz que é fácil descobrir quais jogadores têm problemas de saúde mental, mesmo quando eles não dizem nada para a comissão técnica. É uma situação delicada, por que é preciso ajudar e, ao mesmo tempo, respeitar a privacidade do atleta.

“Um treinador consegue perceber isso facilmente”, diz Rivers. “Teve um jogador que assim que conheci já pensei: ‘Olha, esse cara não tomou a medicação hoje’.”

Jalen Rose ficou eufórico quando foi jogar nos Pacers em 1996. Houve uma empatia imediata com o presidente Donnie Walsh, mas o mesmo não ocorreu com o técnico Larry Brown, que, segundo Rose, mexeu os pauzinhos para que ele fosse diagnosticado com TDAH.

“Larry não gostava de mim como jogador nem como pessoa”, diz Rose. “Acho que ele pensou: ‘Esse cara tem algum problema’. Foi assim que começou uma série de eventos que acabaram culminando no meu diagnóstico.”

Rose diz que foi chamado em uma sala de treinamento, onde o médico da equipe fez uma série de perguntas. O médico disse que ele tinha TDAH e precisava tomar remédios.

“Provavelmente eu tinha [TDAH] naquela época e provavelmente tenho agora”, diz Rose, “mas, na minha opinião, essa era a desculpa que ele [Brown] encontrava para não me escalar.”

Rose não lembra exatamente qual foi a medicação receitada pelos Pacers, mas diz que nunca tomou nenhuma das pílulas. Ele jogou o remédio no lixo. Segundo Rose, Brown foi conversar com ele algumas semanas depois e elogiou muito sua melhora em quadra. “Eu fiquei chocado quando eles me disseram que eu tinha ‘mudado’ e o remédio estava me ajudando”, lembra Rose.

Em 1997, quando Brown foi substituído no cargo de treinador por Larry Bird, Rose contou aos colegas que não tinha tomado os remédios durante toda a temporada. Depois disso ele ainda jogou mais de 4 temporadas e meia em Indiana sem maiores problemas. Após encerrar a carreira, ele acabou fazendo as pazes com Brown.

“Tenho certeza que alguns caras na liga hoje em dia têm TDAH, estão tomando a medicação e gostariam de parar”, diz Rose. “Os remédios não são a solução para todas as pessoas.”

Brad Stevens, técnico dos Celtics, se interessa por saúde mental desde que trabalhou na empresa farmacêutica Eli Lilly, dona da patente do Prozac, remédio que é usado para tratar várias doenças mentais.

“Todo mundo que trabalhava na Eli Lilly tinha que entender como o Prozac funciona”, explica Stevens. “Sei que certos medicamentos podem funcionar muito bem e sei que muitas pessoas que lidam com esses problemas poderiam ser tratadas, mas muitas vezes não querem buscar ajuda. E também aprendi que alguns efeitos colaterais produzidos por aquelas drogas poderiam causar problemas.”

Stevens trata a saúde mental como prioridade em suas equipes, implementando programas de bem-estar e trazendo palestrantes como a Dra. Stephanie Pinder-Amaker, diretora do Programa de Saúde Mental do McLean Hospital, para falar com seus jogadores. Tanto Larkin quanto Marcus Morris, ala dos Celtics, contam que fizeram tratamento com Pinder-Amaker sem que os colegas de equipe soubessem, com ótimos resultados para ambos. Morris diz que, antes de conhecer Pinder-Amaker, chegou a experimentar maconha como remédio contra depressão.

“Eu conheço caras que bebem todos os dias para ficar tranquilos”, diz Morris. “É assim que eles lidam com a vida. É o jeito deles. Mas você sabe que isso não funciona a longo prazo”.

A presidente do sindicato, Michele Roberts, admite que os jogadores procuram a maconha e o álcool em busca de ajuda, especialmente se sentem que os remédios receitados pelos médicos os deixam com a sensação de que estão “apagados”.

“Nós nunca negamos isso”, disse Roberts à ESPN em março.

Larry Sanders diz que sua decisão de se automedicar custou a carreira AP Photo/David Zalubowski

Larry Sanders, ex-ala-pivô do Milwaukee Bucks, conta que a decisão de se automedicar prejudicou sua carreira. Ele era uma jovem estrela em ascensão, mas a ansiedade e a depressão debilitantes levaram o jogador a buscar alívio fumando maconha. Ele foi acusado de violar o programa de abuso de substâncias da NBA quatro vezes, depois foi suspenso duas vezes e acabou tomando a surpreendente decisão de abandonar o basquete em 2015.

“A NBA se preocupa demais com o uso [da maconha] e não liga para a causa do problema”, diz Sanders. “Todo mundo diz que 90% do desempenho do atleta depende da condição psicológica, mas não estamos cuidando disso.”

“A NBA tem medo que apareça um jogador dizendo: ‘Estou deprimido e quero fumar maconha’. Esse é o maior pesadelo da liga. Eles queriam que eu tomasse um monte de remédios, mas eu não aceitava isso. Eu pessoalmente escolhi fumar maconha. Não tinha interesse nas drogas que os médicos me receitavam.”

Desde a suspensão de Sanders, a NBA reforçou sua política de saúde mental. A liga enviou um memorando interno a todas as suas equipes em 31 de maio, com sugestões que incluem: garantir a privacidade do jogador em questões de saúde mental; manter um profissional com experiência clínica em saúde mental na comissão técnica; ter um psiquiatra disponível para os jogadores; e fornecer material de conscientização sobre saúde mental para a equipe.

O programa de Lucas tenta deixar claro para os atletas que “o basquete é sua profissão, não quem você é”. Há muitas armadilhas no caminho dos profissionais – muito tempo livre, muito dinheiro, muitas influências ruins. Se os jogadores não têm uma vida fora das quadras, eventualmente acabam caindo na tentação.

“Por que o vício e a saúde mental andam de mãos dadas? São duas faces da mesma moeda”, insiste Lucas. “A saúde mental é uma condição espiritual. É isso que as pessoas não entendem. Um vício é algo que não deixa a pessoa mudar seu comportamento para atingir seus objetivos e, por isso, ela acaba mudando seus objetivos para se adequar a seu comportamento. Nesse ponto temos um problema sério.”

“O que os atletas estão fazendo agora é deixar de tomar o remédio e fumar maconha. O THC [tetraidrocanabinol] é o princípio ativo da maconha, a substância que acalma as pessoas. Quando a NBA apresentou sua política de drogas pela primeira vez, os jogadores não podiam ser suspensos por consumir essa substância. O THC ajuda os epilépticos e as pessoas que sofrem dores.

“O problema é que isso não te mata. Mas mata sua determinação, sua vontade de se superar. Acaba com a sua energia”.

O THC é um dos 113 compostos químicos da folha da maconha e comprovadamente o de maior potencial psicoativo. A estrela da NBA não identificada disse que também fumou maconha para “controlar” sua depressão. “E funcionou”, diz ele. “Mas só por um tempo.”

“O que me deixa inconformada”, diz Pinder-Amaker, “é que a depressão é uma das doenças mais tratáveis que existem. Nem sempre os remédios são obrigatórios. Há várias terapias cognitivo-comportamentais, estratégias baseadas em evidências. As pessoas podem aprender a mudar seu jeito de pensar de muitas formas.”

Pinder-Amaker diz que se alguém tem o que ela chama de pensamentos negativos automáticos (por exemplo, “eu nunca vou conseguir fazer esse arremesso, nunca vou ser líder desse time, eu sei que eles vão me dispensar”), é possível convencer a pessoa a refletir sobre esses pensamentos e identificar por que se sente assim.

“A ansiedade, a apreensão, o medo, tudo é desencadeado por esses pensamentos”, explica Pinder-Amaker. “Quando eles falam sobre isso, nós aprendemos muito.”

Esses pensamentos não são exclusivos de quem joga basquete. Muita gente fica presa nesses esquemas mentais. Por isso, tentamos aumentar a conscientização, encontrar a causa do problema e ajudar as pessoas a repensarem seus conceitos. Quando eles dizem: ‘Foi pura sorte terem me escolhido’, nós respondemos: ‘Será mesmo? Você treinou muito. Se destacou na faculdade’. Será que esse pensamento negativo tem alguma base real?”

“Mas nós só podemos ter sucesso se a pessoa entende e acredita na reestruturação positiva do pensamento.”

“Por que o vício e a saúde mental andam de mãos dadas? São duas faces da mesma moeda”

John Lucas II, assistente técnico do Rockets

DeMar DeRozan, que declarou publicamente que sofre de depressão e, com isso, despertou a atenção de todos sobre o tema, diz que, embora os atletas que fumam maconha chamam mais atenção da imprensa, muitos de seus colegas estão mesmo usando álcool como medicação. DeRozan diz que nunca bebeu, já que pôde observar desde a infância os vários problemas causados pelo abuso do álcool. “Eu vi muita gente usando álcool para esquecer a dor, o que mudou totalmente essas pessoas. Elas acabaram ficando agressivas, abaladas e autodestrutivas”, diz DeRozan. “Eu escolhi não seguir esse caminho, mas com certeza alguns jogadores fizeram outras escolhas.”

“[Minha depressão] me levou à solidão e ao isolamento. Com o passar do tempo, isso não é nada saudável. Esses sentimentos vão se acumulando.”

Dwane Casey, treinador do Detroit Pistons, confirma que o abuso de álcool continua marcando presença na NBA. “Muita gente está entrando nessa onda”, diz Casey. “E não há dúvida de que parte disso se deve ao estigma que está ligado à medicação. Os jogadores pensam: ‘Se eu tomar isso não vou ter mais o mesmo desempenho em quadra’, mas na verdade uma coisa não tem necessariamente nenhuma relação com a outra.”

A maioria dos jogadores entrevistados para esta série de reportagens sobre saúde mental disseram que a NBA deveria exigir que as equipes tivessem um plano abrangente para esse tipo de problema, sempre respeitando a privacidade dos jogadores. Atualmente, cada time cuida do tema da forma que quiser. Os dirigentes alegam dificuldade para fazer com que todos os membros da equipe entendam a importância desse plano. Se um jogador tem problemas, o psicólogo esportivo pode decidir que é melhor ele se afastar dos treinamentos ou consultar um profissional de saúde mental, enquanto o preparador físico pode achar que o jogador está sendo “molenga” e precisa trabalhar mais.

QUANDO SHANE LARKIN chegou ao ensino médio, Lisa Larkin estava tão preocupada com o filho que isso acabou afetando sua saúde. As obsessões de Shane eram cansativas e caras. Se alguém espirrasse perto de seu telefone, ele se sentia obrigado a lavar o aparelho, o que acabava causando um curto-circuito. O mesmo acontecia com seu notebook.

Apesar de seus sintomas de TOC, Larkin continuou a se destacar na quadra. Ele foi jogar na DePaul University. Nessa época, sua irmã já havia saído de casa e seu pai estava constantemente viajando por conta de seu trabalho na ESPN. Com isso, Lisa enfrentou sozinha a preocupação de ver seu filho se mudar para o outro lado do país.

“Todas essas mudanças que aconteceram nas nossas vidas acabaram deixando minha mãe bastante estressada”, diz Larkin. “Ela me ligava toda hora. Aquilo estava me estressando também. É nessas horas de estresse que o TOC ataca de verdade. Eu tomava cinco duchas seguidas no vestiário e nem assim me sentia melhor.”

Lisa começou a ter ataques de pânico, que acabaram afetando Shane por tabela. “Eu fiquei tão preocupado com ela que meu TOC se descontrolou”, lembra Larkin. “Nunca fiquei tão mal.”

As aulas na DePaul University ainda não tinham nem começado quando Larkin resolveu pegar um avião e voltar para Orlando. Seu pai ficou possesso com o fato de seu filho não estar cumprindo o compromisso assumido pela bolsa de estudos. “Barry me dizia: ‘Você tem que fazer ele voltar para a faculdade’”, lembra Lisa. “Mas o Shane não queria voltar. Não foi uma época legal para ninguém.”

Barry Larkin não suportava ver o sofrimento do seu filho, mas alega que não entendia bem a magnitude do sofrimento dele, até que a esposa lhe disse: “Isso é sério. Ele vai precisar de terapia para lidar com esse problema.”

Shane pediu uma dispensa médica para a NCAA, assim ele poderia conseguir uma transferência sem ter que perder o ano. Ele conseguiu uma vaga em uma universidade de Miami, bem mais próximo de casa, o que ajudou a controlar sua ansiedade. Larkin conheceu uma nova terapeuta, que apresentou a ele técnicas de meditação e relaxamento. Ele conseguiu se abrir sobre sua infância, sua educação, sua obsessão pelo basquete.

“A parte mais engraçada foi quando percebi que meu pai também tem [TOC]”, diz Larkin. “Quando chega em casa e vê alguma coisa fora do lugar, até um alfinete no chão, ele tem que dar um jeito naquilo ou fica de mau humor. Mas ele diz: ‘Isso não tem nada a ver. Eu sou só uma pessoa organizada’.”

Quando Larkin participou do NBA combine, antes do Draft de 2013, ele foi bombardeado por perguntas: Como você consegue conviver no vestiário com esses problemas? Você toma remédios? Você já está curado? “Eu não culpo ninguém por fazer essas perguntas”, diz Larkin.

Ele estreou jogando pelo Dallas Mavericks, depois jogou um ano no New York Knicks e outro pelo Brooklyn Nets. Sua última temporada foi com os Celtics. Recentemente, ele assinou um contrato de um ano com o Anadolu Efes, da Turquia.

Larkin continua sem conseguir encostar na torneira e ainda fica irritado quando as mãos estão sujas, mas seus dias de lavagem obsessiva ficaram para trás. Há um ano, Larkin soube que a filha de 10 anos de um amigo da família estava com sintomas de TOC tão graves que não conseguia sair de casa.

“Foi muito difícil receber essa notícia”, diz Larkin. “Eu sei exatamente o que ela está passando”. Larkin se empenhou em ajudar a menina. “A pior parte foi quando ela me disse: ‘Tenho medo de nunca ter amigos por que sou muito estranha’.”

Para administrar seu TOC, Larkin precisou contar com o apoio de sua mãe e de seu pai. Este, aliás, passou a ser uma fonte de força e determinação após entender melhor a situação de Shane. Para Pinder-Amaker, ter uma família que é parte da solução, em vez de ser parte do problema, é uma enorme vantagem para o paciente.

Shane conseguiu ficar bem sem os remédios, já sua mãe decidiu confiar na medicação para ajudá-la com os problemas de saúde mental. Ambos ainda lutam para manter seu equilíbrio mental, por isso a decisão de Shane de falar sobre seus problemas publicamente foi tão libertadora para ele.

“Quando você fala sobre isso, já não se sente tão sozinho”, diz Larkin.

“Tomar ou não tomar remédios? O espinhoso problema da saúde mental da NBA” é a parte 3 de uma série especial da ESPN. Este mesmo capítulo, em inglês, pode ser acessado em “To medicate or not? The thorny mental health issue in the NBA”.

“Essas opiniões desencontradas podem atrapalhar os jogadores”, diz Buss. “Precisamos criar um espaço mais democrático, onde as pessoas entendam que precisam respeitar a opinião dos outros também. Se um jogador está se automedicando [com álcool ou drogas] por que é assim que ele se sente melhor, ou pelo menos é o que eles pensam, temos que encontrar uma maneira de oferecer alternativas colaborativas e sigilosas.”

Lucas diz que é fundamental para a NBA melhorar os meios para identificar jogadores com problemas de saúde mental o mais rapidamente possível e ser mais proativa para conseguir fazer com que eles procurem ajuda.

“Durante uma viagem, o cara que se isola é aquele que está deprimido”, diz Lucas. “É fácil identificá-lo. Ele está sempre sozinho, sempre dentro do quarto, nunca sorri, nunca vai para lugar nenhum.”

“O cara que tem TDAH é aquele que não consegue ficar quieto. Ele entra no ônibus, depois sai do ônibus, não sossega. Já o cara com TOC surta se vê um pedaço de papel jogado no chão. Eu sempre digo aos treinadores: ‘Se esses jogadores fossem filhos de vocês, se tivessem seu sangue, vocês tratariam a coisa de forma diferente. Vocês se preocupariam muito mais do que estão se preocupando agora’.”

Shane Larkin, que combate o TOC desde que é criança, aprendeu a lidar com os sintomas 

FONTE: ESPN 2018

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